GESTÃO CULTURAL TRANSFORMADORA

Posted on Abril 27, 2013

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GESTÃO CULTURAL TRANSFORMADORA

Por Célio Turino. Historiador, escritor e gestor de políticas públicas. Servidor Público há mais de 30 anos, exerceu funções como Secretário de Cultura e Turismo em Campinas,SP (1990/92), Diretor de Promoções Esportivas e Lazer em São Paulo, SP (2001/04) e Secretário da Cidadania Cultural no Ministério da Cultura (2004/10). Idealizador e gestor de diversas políticas públicas inovadoras, entre elas o programa Cultura Viva e os Pontos de Cultura, atualmente em processo de implantação em diversos países. Autor e organizador de inúmeros livros e ensaios, entre os quais: NA TRILHA DE MACUNAÍMA – ócio e trabalho na cidade (Ed. SENAC, 2005) e PONTO DE CULTURA, o Brasil de baixo para cima (Ed. Anita Garibaldi, 2009). Este é o quarto texto de uma série de cinco artigos sobre políticas públicas para a cultura, adaptados do livro “Ponto de Cultura – o Brasil de baixo para cima” (Ed. Anita Garibaldi, 2009). Célio estreia com a série sua coluna no SPressoSP e na Revista Fórum

1 – Cultura como filosofia de governo

Apontar a centralidade da cultura nos programas de governo, tanto federal, como estaduais e municipais, não é fácil. Esse reconhecimento não significa deixar de lado compromissos específicos, sejam eles de atendimento a comunidades (moradores de determinadas regiões, recorte étnico, de gênero, de classe ou etário) ou temáticos, como habitação, saneamento, transportes. Eles continuam no foco, mas com uma abordagem cultural. É possível imaginar a formulação de uma Cultura de Paz (prefiro este conceito a formulações como “Cultura e Lazer para combater a violência”) sem a construção e desenvolvimento de ações de convivência, lazer e cultura? Ou um trânsito civilizado sem uma cultura de respeito ao pedestre, sem respeito à vida?

Uma das principais realizações do governador Cristóvão Buarque em Brasília foi o programa Educação no Trânsito. Quem visita a cidade e circula a pé por suas quadras entenderá o que estou dizendo; basta pisar na faixa de pedestre ou levantar o braço pedindo passagem que os carros param. Um sopro de civilidade e cultura na capital do país. Isso acontece em Brasília, uma obra de trânsito que não precisou de viadutos ou túneis, e que reverteu uma situação em que o Distrito Federal figurava como o campeão de mortes violentas no trânsito. Mesmo com a mudança de governo esta obra permanece até hoje. Permanece porque entrou no espírito do povo. Uma obra cultural, portanto.

Termine a leitura em http://revistaforum.com.br/spressosp/2012/03/pontos-para-uma-gestao-cultural-transformadora-parte-1/

2 – Cultura como processo

O nome já diz, cultura, do latim colere, cultivo. Cultivar a mente é a mesma coisa que cultivar a vida, produzir alimentos, manejar o ambiente. Como se faz para cultivar alimentos (ao menos enquanto os transgênicos ou pílulas cibernéticas – todos devidamente patenteados e com poucos donos ganhando muito dinheiro – não tomam conta do planeta)? Prepara-se a terra, depois a semeadura, o acompanhamento do crescimento das plantinhas, o cuidado com elas evitando ervas daninhas e pragas, a irrigação… Depois a colheita. E após a colheita, a seleção das sementes, o preparo da terra, o cuidado com as plantas, a irrigação… Depois a colheita. Depois, tudo novamente.

Em política cultural também devemos agir assim. O zelo com o patrimônio, sem o qual não temos base para nos projetar para o futuro; a formação continuada dos cidadãos em programas de educação integral ou cursos livres, oficinas e interações estéticas (e éticas) voltadas para todas as idades, gênero ou classe social. O fomento à produção e criação artística e simbólica, com liberdade e transgressão.

Termine a leitura em http://revistaforum.com.br/spressosp/2012/03/pontos-para-uma-gestao-cultural-transformadora-parte-2/

3 – Cultura como educação

“O grande desafio do país está na qualidade de sua educação”. Dificilmente algum político se elegeria sem repetir esta frase. Mas as premissas consideradas necessariamente evidentes e verdadeiras nem sempre o são. Educação é um direito do cidadão, dever do Estado; todos a defendem, todos se unem por ela. Mesmo assim, continuamos derrapando. E continuaremos derrapando enquanto não percebermos a educação como um método de transmissão de cultura. Educação é ferramenta, assim como a pedagogia. Mas não é assim que a educação se vê e talvez ela seja o caso mais emblemático de como os meios suplantam – e deformam – o conteúdo.

Quando a educação afasta-se da cultura, ela perde sua alma e quando a cultura se afasta da educação, ela perde seu corpo. Os métodos aplicados na educação mais adaptam que transformam, tornando-se cada vez mais instrumentais. Uma redução educacional que cada vez empobrece mais o aprendizado, contentando-se em ensinar as primeiras letras para uma leitura e escrita cada vez mais rasa; há também a matemática, as primeiras contas, sem as quais não se maneja uma máquina, seja um robô ou computador. E tudo mais vai se tornando dispensável. A educação não ganha qualidade com esta redução. Basta observar. Educação sem história, filosofia ou ciências não localiza as pessoas no mundo. Educação sem arte não aproxima o sensível da razão. E os modernos pedagogos da educação instrumental retornam seu ofício à origem etimológica da profissão, do grego antigo Paedagogus, “escravo que acompanha as crianças”. Nossas crianças, jovens, adultos e velhos não precisam de escravos que escravizem, querem uma educação que liberte.

Termine a leitura em http://revistaforum.com.br/spressosp/2012/03/pontos-para-uma-gestao-cultural-transformadora-parte-3/

4 – O financiamento da cultura

Os princípios brevemente explicitados neste capítulo são essenciais para uma gestão pública de cultura que se pretenda transformadora. A política cultural deve ser sempre pluralista, sem interferências de gosto, de conteúdo ou de estética. Tal diversidade, no entanto, não pode deixar de perceber que o produto cultural encontra níveis variados de produção, circulação e fruição. E esta diferença de níveis leva a diferentes formas de financiamento e fomento.

Parte da produção artística terá sempre espaço no mercado, muitas vezes com pouca inovação, é fato. Porém, é preciso quebrar preconceitos e reconhecer que o mercado também abre espaço para produtos de excelente qualidade, tanto em relação à forma quanto ao conteúdo. Como determinados produtos culturais já desenvolveram seus mecanismos de financiamento, devem ficar a cargo da iniciativa privada. Mas existem produtos culturais que a iniciativa privada se revela incapaz de promover, cabendo ao poder público suprir essa insuficiência, assegurando uma múltipla oferta de bens culturais.

Termine a leitura em http://revistaforum.com.br/spressosp/2012/03/pontos-para-uma-gestao-cultural-transformadora-4/

5 – Cidadania cultural

A prática que envolve o conceito de cidadania cultural deve ter como alicerce o desenvolvimento efetivo dos conceitos de patrimônio cultural, formação, informação, criação, distribuição e acesso. Essa prática não se realiza instantaneamente, pois tem um caminho longo a percorrer: sofre recuos, depende de avaliações e, normalmente, é incompreendida no momento de sua aplicação. Em processos de transformação social são as mentalidades que mudam mais lentamente, mas sem um início de mudança neste campo não há transformação possível.

Gestão é definição de política, implica em tomada de posição, de campo de ação e não pode ser confundida como processo neutro. Uma gestão competente e comprometida deve apresentar uma conduta pública coerente, em que os conceitos e políticas apresentados à sociedade permitam a construção de consensos, transformando suas realizações em conquistas da cidadania. A eficiência da gestão, para além de um bom gerenciamento, demanda instrumentos de mediação e diálogo com o público. Por isso, os Conselhos são estratégicos, pois são eles (desde que representativos) que viabilizam essa mediação entre o poder público e a sociedade. Uma postura democrática de governo deixa abertas possibilidades para experiências alternativas e não deve pretender, a cada novo mandato, “reinventar a roda”, cabendo aproveitar aquilo que é positivo e indo adiante rumo a uma efetiva e consistente transformação, aprofundando o processo de mudanças sem nunca acomodar-se.

Termine a leitura em http://revistaforum.com.br/spressosp/2012/04/pontos-para-uma-gestao-cultural-transformadora-5/

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