USP, o mito da segurança e espetacularidade das violências

Posted on Novembro 8, 2011

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Aparelho repressivo e Estado

Foi-se a Ditadura, mas ficou o Estado, dono do aparelho repressivo, seu privilégio (e de quem pode pagar). O exercício da violência e da repressão é um monopólio, em geral, do Estado, democrático ou não. Dizer que o aparelho autoritário da ditadura foi-se embora e que a redemocratização trouxe um Estado de tipo novo é esconder contradições. 


Essas afirmações procuram justificar uma tese: de que a situação ficou tão no fundo do poço, que não existem mais soluções, a não ser abrir mão de certos direitos ou, utilizando o termo da época, flexibilizar certos direitos. É um bom $negócio$ radicalizar.

Impossível negar que o aparelho estatal e seu privilégio da violência continuam a serviço dos mesmos lacaios de outrora. O autoritarismo e o paternalismo ainda contaminam o Estado. A corrupção tornou-se sistêmica e a existência de corruptos e corruptores se reproduz ao estilo coelho. 
O mito da segurança
A segurança é tema do tempo presente: nela, um direito legítimo do cidadão é posto a serviço dos interesses privados e das grandes corporações: enquanto inúmeros países, com o incremento do seu desenvolvimento, produziram relações mais orgânicas entre comunidade e serviço de segurança pública, inclusive com o banimento de uso de armas letais em ações de rotina, aqui no Brasil, clama-se por Hollywood!
Sangue e castigo. Depois que racionalmente se demonstrou que mandar alguém pra cadeia complica exponencialmente a condição de vida do/da meliante, a moda agora, no mundo do fast-think, é #darpaulada, #matar e resolver as coisas assim. Sumiram as reflexões e ponderações éticas. Produtividade ao máximo.
Esta radicalização pode ser indício de que estamos a acreditar na não-solução. Mas, provoca-se: houve, algum dia, da aurora da humanidade aos dias logo ali na esquina, alguma solução para a questão da segurança?
Compartilho da idéia de que não. Viver sempre foi repleto de riscos. E as posses sempre foram visadas por bandidos do deserto, gangues urbanas, trupes medievais, bandos pré-históricos. Risco e Segurança (bom ler Anthony Giddens, sobre esse tema).  É como se em algum tempo da memória de alguém, tivesse existido um momento na história da humanidade em que os riscos eram diminutos e as pessoas eram solidárias e simpáticas e carregadas de comunidade em sua alma. E no nosso tempo presente, este é um mito contemporâneo.


Mas, também, é indício da mercantilização dos direitos – segurança de qualidade para quem tem grana e posses, R$1,99 para os demais. E é indício do poder e das relações de quem fatura com a indústria da segurança.
Direitos por segurança: troca bilionária
Mas esta análise, que foi pensada no momento em que a polícia realiza ocupação do campus da USP – Universidade de São Paulo, não quer cair no niilismo radical. Mesmo acreditando na impossibilidade da ausência dos riscos, as causas do aumento do risco devem ser investigadas pelo conjunto de agentes interessados para que se apontem alternativas. A questão, então, é de alternatividades. E mais: quais são as melhores alternativas não-violentas para tratar da questão da segurança?
E bom lembrar-se do Rio de Janeiro e de partes da Colômbia: a militarização da sociedade traz consigo novos bandidos, tão bem armados quanto os atuais e melhor acobertados pelo Estado. É bom lembrar-se dos casos de execução sumária de pobres, da ação violenta das polícias nos campos, da sua corrupção e da repressão a manifestações de pensamento. É bom, também, identificar o lobby das empresas de armas junto aos políticos, o tráfico internacional de armas, com o consentimento de grandes países e empresas.
Vende-se hoje o discurso da segurança porque ela é uma indústria bilionária. Vende-se hoje o discurso da segurança porque ela á uma indústria sanguinária, que alimenta outros bilhões em outra indústria, a da mídia e entretenimento. Vende-se hoje o discurso da segurança porque ela alimenta boas fotos para campanhas políticas. SE é fato que a nossa situação de segurança está se deteriorando, ela só aparece dentro da lógica que movimente seus bilhões.  Caso não mobilizasse grana e audiência, eu, tu, ele e nós, vizinhos, estaríamos decididamente mau servidos.
Democracia não deve ser um privilégio concedido aos pobres e pessoas comuns da sociedade, por parte dos ricos, quando melhor lhe convém aos seus lucros e interesses. Por exemplo, para exercitar o contraditório, que faz parte da ética jornalística, a atual cobertura dos meios de comunicação não tem se ouvido o outro lado, nesse caso, os estudantes que ocuparam o prédio, que tem a liberdade de se autointitular da maneira que melhor representa sua participação no mundo (não são apenas as empresas que podem se apropriar do simbólico para vender suas marcas). Apenas a versão da reitoria e da polícia e quando estudantes, mostram apenas os favoráveis a ação da polícia, em franca manipulação. E porque se manipula? Porque jornalismo virou negócio.
Por fim…
No caso da USP, uma manifestação legítima de pensamento expressada pelos estudantes, de que não é papel da polícia militar rondas no território universitário, tem-se transformado num espetáculo midiático levado a cabo por setores conservadores da sociedade que se aproveitam de sua situação privilegiada na política, na economia, na mídia e em outros espaços para destilar VELHAS ORTODOXIAS. Além da desconstrução do movimento, taxado de vagabundos, ocorre um contra-ataque desses setores do atraso depois da realização das marchas da maconha pelo Brasil, nos últimos anos. A questão não é ser a favor ou contra uso da maconha, mas como a sociedade vai dialogar com a diferença de modos de viver e experimentar o mundo. Ela não se reduz a isso. Não se engane: não é a maconha, estúpido!
Em torno desse relicário de velhas ortodoxias, reforça-se o discurso feito todo dia, como “pai-nosso e ave-maria”: mais polícia, mais polícia, mais polícia. Nem quando 50X50 da população for parte do corpo policial e a polícia dispor de arsenal nuclear, a questão estará resolvida. Isto é, o incremento da violência estatal, através das suas polícias, tem servido para preparar o caminho do futuro da humanidade. 
E qual seria este futuro? Definitivamente, não é o futuro dos 99% da sociedade. É o futuro arduamente trabalhado e que vem sendo planejada para os benefícios do 1%. E qual seria o modelo do futuro idealizado pelo 1% da sociedade global? É a China. Maxiprodutividade do capital e autoritarismo estatal elevado. Para isso, fica como sugestão o poema de Eduardo Alves da Costa: No Caminho, com Maiakóvski.