Entrevista com Z. Baumann

Posted on Outubro 18, 2011

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”O 15-M é emocional, lhe falta pensamento”, afirma Zygmunt Bauman

Zygmunto Bauman, o filósofo e sociólogo polonês, famoso pelo seu conceitomodernidade líquida, tão fértil que foi aplicado ao amor (líquido), a arte (líquida), ao medo (líquido), ao tempo (líquido) e assim a qualquer coisa, publica o ensaio 44 cartas a partir do mundo líquido [no Brasil publicado pela Zahar].

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Bauman esteve em Madri para receber o prêmioPríncipe Asturias de Comunicação e Humanidades 2010 e para realizar uma conferência no Matadero sob o título Tem futuro a solidariedade? No sábado à tarde, no mesmo horário da manifestação mundial dos indignados, fizemos uma conversa em um hotel a menos de 100 metros da praça de Atocha, onde, entre a multidão, não cabia um alfinete.
Reportagem de Vicente Verdú publicada no El País, 17-10-2011. A tradução é do Cepat.

Pergunto ao professor emérito da Universidade de Leeds (Inglaterra) se lhe parece que essas grandes manifestações massivas, pacíficas e tão heterogêneas conseguirão enfrentar os abusos dos mercados, promover uma democracia real, reduzir as injustiças e, em suma, melhorar a equidade no capitalismo global, mas como professor que é, não responde a questão de uma vez só.

Em sua opinião, a origem de todos os graves problemas da crise atual tem sua principal causa na “dissociação entre as escalas da economia e da política”. As forças econômicas são globais e os poderes políticos nacionais. “Essa descompensação arrasa as leis e as referências locais se convertem à crescente globalização. Daí que efetivamente, os políticos se pareçam como marionetes ou como incompetentes, quando não corruptos”.

“O movimento do 15-M deseja suprir a falta da globalização da política mediante a oposição popular”. Uma oposição eficaz? Na opinião desse sábio de 86 anos, o efeito que se pode esperar desse movimento é “aplainar o terreno para a construção mais tarde, de outro tipo de organização”. Nem um passo a mais.

Bauman qualifica esse movimento, como é bem evidente, de “emocional” e, em sua opinião, “se a emoção é apta para destruir resulta especialmente inepta para construir. Pessoas de qualquer classe e condição se reunem nas praças e gritam os mesmos slogans. Todos estão de acordo com o que rejeitam, mas se receberiam 100 respostas diferentes se lhes perguntasse o que desejam”.

A emoção é (como não?) “líquida”. Ferve muito, mas, também logo se esfria. “A emoção é instável e inapropriada para configurar algo coerente e duradouro”. De fato, a modernidade líquida dentro da qual se inscrevem os indignados possui como características a temporalidade, “as manifestações são episódicas e propensas à hibernação”.

Precisaria de um líder inflamado? Vários líderes temperamentais? “O movimento não aceitaria, uma vez que, tanto sua potência como seu gozo é a horizontalidade, sentir-se juntos e iguais, o que, em importante medida nega o superindividualismo atual”. A superindividualidade (da modernidade líquida) “cria medos, desvalimentos, uma capacidade empobrecida para fazer frente às adversidades”.

O stress é a doença que acompanha essa sevícia. “As pessoas se sentem sós e ameaçadas pela perda do emprego, da redução dos ganhos, da dificuldade de adaptação ao risco. O stress é corrente entre os desempregados, mas também nos empregados, pressionados pela demissão, as aposentadorias precoces ou salários cada vez mais baixos. Nos Estados Unidos o stress produz tantos danos econômicos como a soma conjunta de todas as demais doenças”. As baixas no trabalho por stress chegam a custar, diz Bauman, 300 milhões de dólares por ano e a cifra aumenta a cada ano.

Tudo isso provocará uma mudança no sistema, um colapso ou alguma mudança substantiva? Sua resposta é que, nesse momento, prefere falar de “transição” e não de “mudança”. Seria preciso fatos mais claros para se pronunciar sobre o alcance dos atuais transtornos. “Antes, se necessitava de muito tempo para se organizar atos massivos como os do 15-M, mas hoje as redes sociais permitem enormes concentrações em pouco tempo”. Mas retornamos ao mesmo: da mesma maneira que se concentram e agem com velocidades, poucos depois somem.

O movimento cresce e cresce, mas “o faz através da emoção, lhe falta pensamento. Com emoções apenas, sem pensamento, não se chega a lugar nenhum”. O alvoroço da emoção coletiva reproduz o espetáculo de um carnaval que acaba em si mesmo, sem consequência. “Durante o carnaval tudo está permitido, mas terminado o carnaval volta-se a normalidade de antes”.

Pode dizer-se, declara o professor, que “falamos de uma fase especialmente interessante como num laboratório de nova ação social”. Cedo ou tarde a crise terminará e, sem dúvida, as coisas serão diferentes, mas, de que modo?

“Não me peça que eu seja profeta”, pede Bauman. “Em alguns lugares, não em todos, o movimento tem conseguido conquistas importantes, mas não extensível a todos os países”. O líquido continua sendo válido para a previsão do que vem pela frente. A modernidade líquida se expressa, obviamente, em sua falta de solidez e de firmeza. Nada se acha o suficientemente determinado. Nem as ideias, nem os amores, nem os empregos, nem o 15-M. Por isso teme que tal arrebatamento acabe também, finalmente, em nada. Não é certo, mas sendo líquido, como não pensar na evaporação?

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