Sobre “a conveniência da cultura”

Posted on Agosto 14, 2011

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O autor que sugere este termo é George Yúdice (2006), apontando esta característica como óbvia dos desdobramentos da vida contemporânea. A intenção do autor, ao propor o conceito, não é deslegitimar esses usos da cultura, mas entender o que “ela nos assinala a respeito de nosso período histórico” (p.47).

Falar apenas em instrumentalização da cultura não faz sentido, ou então, não é capaz de explicar os fenômenos recentes. A recíproca “permeação entre cultura e economia”, por exemplo, deve ser vista para além da mera mercadoria, mas “um modo de cognição, de organização social e ate mesmo tentativas de emancipação social” (p.49).

Yúdice diz que a Cultura, conforme tradicionalmente conhecida, como Alta Cultura ou “cânones de qualidade artística”, ou em seu sentido antropológico, enquanto “padrões simbólicos que dão coerência e conferem valor humano a um grupo de pessoas ou sociedade” e, por fim a cultura enquanto disciplina ou conjunto de técnicas de comportamento perde forças, em virtude da conveniência da cultura (p.454).

É central apontar, ainda, que esses fenômenos estão ligados a perda de poder do Estado nacional diante das dinâmicas da globalização e do capitalismo contemporâneo. A cultura, durante o século XIX e XX desempenhou um papel importante, enquanto baliza para a criação de uma identidade nacional étnica, que acolhesse a todos os pertencentes de um território que vai sendo, então, socialmente construído. Desta forma, a cultura estaria libertada dessa função ideológica.

Ainda por estas épocas, as experiências de alternatividade e de vanguarda que propunham valores mais universais vindos de artistas ou grupos sociais são chamadas a “incrementar os interesses do Estado e do mercado”. Esses grupos ou artistas alternativos se estendem a comunidades, “dando poder a grupos que não freqüente a arte e se baseiam em noções de cidadania cultural, segundo os quais a participação democrática pode fomentar-se ativando as culturas não hegemônicas no espaço público (p.453).

Desta forma, é possível argumentar que o papel da cultura expandiu-se para as esferas política e econômica, esvaziando as noções conhecidas de cultura. Ela está sendo direcionada como um recurso “para a melhoria sociopolítica e econômica”. A desmaterialização do desenvolvimento, como os bens simbólicos e a propriedade intelectual, catapultaram o protagonismo da cultura. Os fenômenos de mercantilização aprofundam as possibilidades objetivas em torno da cultura.

O Estado, o mercado e instituições internacionais, como o Banco Mundial, “começam a compreender a cultura como uma esfera crucial para investimentos, a cultura e as artes são cada vez mais tratadas como outro recurso (p.30)”. Tomam-se os usos da cultura como um avanço qualitativo para as dinâmicas de desenvolvimento, propondo que o “recurso do capital cultural é parte da história do reconhecimento da insuficiência do investimento no capital físico”, típico do século XX. Inúmeras experiências de desenvolvimento promovidas por instituições e comunidades em territórios consideram os valores culturais imprescindíveis para eliminar o analfabetismo, diminuir a violência, gerar renda e empregos, revitalizar regiões e cidades, promover a coesão social em temas divergentes etc. “A compreensão e a prática da cultura são bastante complexos, situados na intersecção das agendas da economia e da justiça social” (YÚDICE, 2006, p.35).

Nestes movimentos, o conteúdo da cultura torna-se menos importante diante da “utilidade da reivindicação da diferença (…) na condição de que elas multipliquem as mercadorias e confiram direitos à comunidade”, e neste caminho, a política vence o conteúdo da cultura, argumenta o autor. É muitas vezes pela via da cultura que grupos e agentes sociais chegam a reivindicação de inclusão social ou política, propondo a redução das desigualdades. A política cultural carrega, em si, na contemporaneidade, a carga da emancipação e da regulação de sociedades e indivíduos, tornando-se fator visível para repensar os acordos coletivos societários. “A cultura está sendo chamada para resolver problemas antes restritos aos campos da economia e da política” (p.46).

Para pensar essas relações de culturalização da política, Yúdice busca o conceito de performatividade. Os fluxos da globalização não trazem apenas homogeneização, mas acima de tudo, diferença. Os deslocamentos e os movimentos do capital rumo a outras culturas geram encontros em que as normas locais ou nacionais são questionadas, aumentando a performatividade: “ao invés de leis fundamentais, muitos princípios diferentes de inclusão e exclusão se disputam. desta maneira, performatividade pode ser encarada como “os processos pelos quais identidades e entidades da realidade social são constituídas pelas repetidas aproximações dos modelos (ou seja, do normativo), bem como por aqueles resíduos (exclusões constitutivas) que são insuficientes” (p.54).

O que conecta sujeitos e sociais são as “forças performáticas, que são os condicionamentos, as imposições e as pressões exercidas pelo campo multidimensional do social e pelas relações institucionais”. Essas forças produzem movimentos de dispersão e de convergência das muitas diferenças visando a singularização do indivíduo ou um maior ordenamento social (p.63).

Interpretar a performatividade da conveniência da cultura, então, requer atenção para as estratégias implícitas na reivindicação da cultura como um recurso disponível para valorizar uma ação dos sujeitos, entidades, instituições, mercado ou mesmo, do Estado.  Desta forma, a ação dos sujeitos, pode levar a ganhos de emancipação, através dos discursos e das práticas acerca da cultura e das obras culturais.

 

REFERÊNCIA

 

YÚDICE, George. A conveniencia da cultura; usos da cultura na era global. Belo Horizonte; Editora UFMG/Humanitás, 2006.