políticas culturais como arado de virar a terra

Posted on Julho 29, 2011

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Sei lá, me passou… Lendo o artigo do Tiago, pensei: porque defendo políticas culturais? Sem querer ser especialista, mas por ser praticante cultural, gostaria de trazer uma pequena defesa. Penso política cultural como políticas de experimentação individual e coletiva, promovidas pelo Estado, instituições públicos e privadas, grupos e associações culturais etc,. apontando para possibilidades que estão confusamente postas na contemporaneidade e que permita que as pessoas decifrem o lugar onde vivem. Mas há muitas maneiras de entender o debate sobre política cultural. Para alguns, a existência da palavra “política” já deslegitima todo e qualquer argumento em defesa de políticas culturais. Outra confusão é dicotomia arte e cultura, como se um fosse devorar o outro.  Arte é sempre experiência individual. Cultura, por sua vez, é sempre experiência individual mediada pelo coletivo, pois sem o Outro não existe cultura.

Em relação ao primeiro ponto crítico, que causa fricção entre diferentes sujeitos do campo artistico-cultural, não dá para negar a política do individuo, que apesar das contradições da época, teve sua autonomia mental potencializada. Digo mental porque o individuo nunca esteve tão livre e tão fermentado para ser criativo. O problema está em passar da dimensão mental para a social, dar materialidade ou algum suporte para estas criações, enfrentando as restrições do capitalismo de nossa época à plena autonomia do sujeito (um exemplo: Crowdfunding). Neste sentido, é preciso por em xeque a política dos partidos e passar a política da ação: seja como pessoa, grupo ou sociedade. Dizer “política” e achar que ela encerra, em si, como única experiência possível somente a dos partidos políticos é pobre demais, nem somente no Estado (qual o papel do Estado na Cultura?). Portanto, não dá pra pensar a política de maneira unidimensional. Se Dirigismo é um sério problema, e real, é, acima de tudo, contornável, a partir da transparência e participação. Aliás, mesmo sem politicas públicas, já existe dirigismo. Não é um problema que resolve-se ignorando. Em suma, a não-escolha é uma política.

Sobre o segundo ponto crítico, há muito que se dizer. Na verdade, eis aqui o “Tendão de Aquiles” de toda discórdia. Enquanto alguns se intitulam artistas, outros se intitulam trabalhadores da cultura. Em geral, a nossa época é bastante confusa em relação a isso. De um lado, querendo amputar-se, está o campo artístico, com seus nomes, escolas, teorias, técnicas e poderes. De outro, antropólogos e adeptos dos Estudos Culturais, que partiram para uma militância em defesa da mudança dos comportamentos, da desvinculação entre cultura e civilização, dentre outras coisas, denunciando usos da cultura para a dominação social, trazendo a cultura para perto da política, ou vice-versa. Os dois lados têm divergências? Muitas, mas não são antagônicos. Complementam-se e interagem tensamente. Como disse anteriormente, aqui há sempre desconfiança como se a arte fosse devorar a cultura e vice-versa, de novo. Mas o fato desconsiderado é que tudo o que é devorado, transforma-se em outra coisa, lá no estomago. Precisamos conhecer essa outra coisa. O Tiago desconsidera que o próprio mercado atenta contra a autonomia da arte. Enquanto o Estado possui mecanismos de controle social, quais são os mecanismos para controlar grandes corporações e sua ação de dominação dentro da arte e da cultura? Eis um velho e caquético falso problema: o que é privado funciona melhor que o Estatal.

Mas arte e cultura não dizem respeito só ao trabalhador do campo ou ao artista: essa dicotomia é falsa. Focar o debate em artista ou produtor/trabalhador da cultura é, também, pobre. Sempre se esquece do público. As maiorias dos projetos culturais apresentados para o Fundo municipal de apoio à cultura de Blumenau servem para financiar “algo” que, depois, beneficia um público. O público dificilmente é pensado antes da execução do projeto.  As comunidades culturais, também produtoras de saberes e portadoras de manifestações culturais características e peculiares, nunca são contemplados no debate “artista” versus “trabalhador da cultura”. É por isso que inúmeros doces, geléias e salgados estão sumindo da gastronomia local, restando apenas o “feito pra turista”. É por isso que a privilegiada situação de ser um município bilíngüe perdeu-se no tempo. É por isso que nordestinos e paranaenses são alvo de piadas por aqui. Porque eles sim estão invisíveis. Atirados ao entretenimento privado ou então, associando-se de uma forma. A vida blumenauense não cabe no debate “artista versus trabalhador da cultura”. 

É por isso que eu defendo políticas públicas de cultura: porque acredito na democracia orgânica aqui onde vivemos, no espaço local; porque como trabalhador da cultura dependo, em grande parte, da existência de artistas e de públicos consumidores/fruidores;  porque nem todo patrimônio cultural é considerado, pela elite da cidade, como patrimônio e por isso somem, desaparecem, sem a possibilidade dos portadores desse patrimônio se manifestarem;  porque expressões artísticas experimentais, amadoras, coletivas, híbridas e o escambau devem ser financiadas como projetos de ação individual e como projetos de vida, não somente como fruir burguês da vida e dos sentimentalismos; que essas expressões possam, redundantemente, experimentar e não serem esmagadas pela indústria cultural e pelo espetáculo; porque tem gente lucrando com o trabalho artístico e cultural de comunidades inteiras, transformando tudo em mais-valia. Por situações assim, dentre outras, que sou um defensor das políticas públicas de cultura e da participação na definição dessas políticas.

Por esses motivos, eu sou levado a superar essa dicotomia “artista versus trabalhador da cultura” para um campo abertamente político, em que as pessoas devem ter sua inteligência, sua intelectualidade, sua espiritualidade massageadas para que ninguém durma na história. É preciso ter direito a cidade, das pessoas conhecerem realmente quem a constrói, quais relações são tecidas. Por fim, não sou muito crente no mito do grande artista iluminado ou angustiado.

-ps: cultura como arado, e não como cultivo, é a tese defendida por Teixeira Coelho.