Reflexão: A Centralidade da Cultura nos dias atuais

Posted on Janeiro 24, 2011

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Material que organizei como início de artigo para disciplina Políticas Públicas e Desenvolvimento Regional. Espero críticas e comentários! Abraços – Márcio. 
É possível afirmar que a dimensão cultural da vida de pessoas e da sociedade ganha relevância no final do século XX, em virtude dos fenômenos de expansão da globalização. A cultura deixa de ser assunto de antropólogos e missionários. A arte deixa de ser um campo restrito e totalmente autônomo, composto por um tipo ideal de artista nascido com o renascimento.

Os avanços nos meios de comunicação, nos sistemas de transporte, a imposição de um modelo econômico com intenção de global e a apologia mercadológica à diversidade, modificam expectativas pessoais e coletivas. As sociedades não-capitalistas e as áreas rurais foram incorporadas pelos movimentos de capitais e de pessoas. Essas expectativas e sentidos da vida estão fortemente vinculados ao espaço local, sua história e relações sociais, políticas e econômicas e como estas se encontram incorporadas às dinâmicas globais.
Recentemente, a cultura vem sendo reivindicada como fundamental para os processos de Desenvolvimento. A sua esfera é do domínio dos símbolos. A noção de desenvolvimento, por sua vez, pertence ao da racionalidade. Enquanto a primeira é constitutiva da sociedade, a segunda é datada historicamente, sendo intrínsecas as sociedades modernas e suas dinâmicas internas e relações com o mundo. Isto quer dizer que, os anseios e necessidades locais passam por processos que entram em choque ou consonância com os fluxos externos. A própria feitura da cidade vai ser em resposta a esses fluxos.
Assim, o vinculo entre Cultura e Desenvolvimento mostra-se decisivo, na medida em que o segundo é influenciado pelo primeiro e vice-versa, gerando a diversidade cultural e as várias interpretações sobre o desenvolvimento (ORTIZ, 2008).
Para David Harvey, as dinâmicas de acumulação da atual fase capitalista reivindicam o espaço geográfico como recurso para maior lucratividade. Com o fim de um modelo fordista-keynesiano, e o advento da “acumulação flexível”, o capital tornou-se cada vez mais imaterial, se apropriado e reivindicando uma dimensão simbólica.
Neste contexto, a dimensão cultural pode ser vista como produtora de dinâmicas sócio-territoriais dos lugares e regiões e, também, das novas formas da própria acumulação capitalista. Lugares e regiões são expressões cada vez mais constantes da mercantilização da cultura.
O que considero como Cultura? Existe uma polissemia de significados em torno do conceito de cultura e essa a multiplicidade das definições acompanha a diversidade de interesses institucionais. Se o assunto for tratado por um antropólogo, estaremos diante de explicações que levam em conta aspectos simbólicos dos universos sociais. É possível tomar a cultura como materialização do campo de lutas em torno das dinâmicas do desenvolvimento e como dimensão estratégica nos pactuamentos celebrados entre os vários atores sociais, em permanente tensão com os efeitos da globalização.
Se fica difícil tomar posição por um conceito, fica mais fácil apontar alguns consensos, deste início de século XXI, necessários, também, para a operacionalização de um conceito e a aplicação em pesquisas e políticas públicas. Podemos indicar: Recusa do Determinismo Biológico; Recusa do Determinismo Geográfico; Cultura é uma construção histórica a partir da existência de relações entre os grupos humanos, sendo apreendida socialmente, carregando significados, convenções, mentefatos e artefatos que tornam inteligível a vida em grupo; a percepção de que a Cultura tem natureza dinâmica, mutável e plural e; a pluralidade e a diversidade cultural não se compadecem de lógicas hierarquizantes, sendo esses resultados do etnocentrismo (não há cultura melhor ou pior).
Nesta mesma linha, pode-se trazer a idéia de “transbordamento da cultura” para campos que até então desconsideravam as dimensões culturais em suas estratégias e lógicas internas. Independente de qual conceito se usa para definir cultura, isto representa um diálogo transdisciplinar no qual a Cultura passa a ocupar centralidade para além das fronteiras do seu “campo”, estabelecendo enlaces e constituindo conjunções (MIGUEZ). Podemos apontar alguns enlaces principais:
a)           Politização da Cultura: disputas em torno de visões de mundo e pela hegemonia e direção intelectual e moral de uma sociedade.
b)          Culturalização da Política: os candidatos a cargos executivos de todas as três esferas governamentais estão sendo obrigados pelos seus eleitores a tocar em assuntos culturalmente relevantes para suas sociedades, aborto, união civil de pessoas do mesmo sexo, descriminalização e legalização das drogas e uso de símbolos religiosos em repartições públicas, por exemplo;
c)           Tecnologização da Cultura: a cultura transborda também para as tecnologias contemporâneas, através da reprodução técnica de textos/imagens/sons como o cinema e a fotografia; ou pelo surgimento do ciberespaço e, ainda, pela produção de bens simbólicos em torno da Indústria Cultural;
d)          Reterritorialização da Cultura; pode-se constatar o conceito de cultura na criação de espaços macro-regionais, como a Organização dos Estados Latino Americanos – OEA. Outro fator importante para a ampliação da importância conceitual da cultura no Território são os fluxos migratórios, geradores de hibridização de estilos de vida e de formas sociais.
e)           Cultura e Economia: neste caso podemos apontar a convergência entre ambas através da Economia da Cultura ou Economia Criativa, cada vez mais presentes nas estratégias de desenvolvimento e que abrange a produção, a circulação e o consumo de bens simbólico-culturais.
f)            Culturalização da Mercadoria: o crescente papel dos elementos simbólicos na determinação do valor da mercadoria.
Desta forma, a noção de cultura é, atualmente, fundamental para se refletir e entender as dinâmicas socioeconômicas dos territórios, para a elaboração de estratégias de preservação de comunidades tradicionais, para a redefinição dos padrões de produção e consumo nas sociedades, enfim, para a refundação do conceito de Desenvolvimento num sentido multidimensional, baseado no manejo com sustentabilidade dos recursos naturais e humanos.
Por exemplo: em Blumenau, em virtude da escolha feita por alguns políticos, empresários e segmentos de representações de classe, a maneira encontrada para se inserir na globalização e daí buscar certos dividendos em forma de lucro foi através da divisão espacial do consumo. David Harvey afirma que a cultura tornou-se “commodities”. Se a cultura local é uma commodity, então não interessa o que pensam as pessoas que nela vivem. Basta criar uma bela propaganda e enviar sinal para o mundo inteiro. Cidade-cultura, mas cultura mercadoria para vendar. Surpreenda-se com a Europa em pleno Brasil, terra de pessoas pacatas, trabalhadoras e ordeiras. Na feitura da cidade, as pessoas e suas necessidades são silenciadas. Blumenau é uma cidade para ser vista. O Não importa se o patrimônio histórico ou seus artistas recebam o descaso do poder público. O que mais importa é que um “alemão tropical”, agigantado, representa todos. Que tipo de política cultural resulta dessa visão? Não sei ao certo. Mas minha hipótese é que há amplificações e exclusões culturais que precisam ser estudadas.
Harvey (2005) argumenta, também, que a Cultura tornou-se um dos poucos meios capazes de assegurar e garantir dividendos via monopólio. E é através da cultura que as cidades iniciam sua “requalificação urbana”. E por essa diferenciação, cidades e outros agentes sociais, tornam-se espetáculos feitos para serem fotografados e adquiridos como souvenir.  Permanentemente, os movimentos desiguais do capital buscam novos recursos de acumulação. Um deles é a criação e destruição de espaços geográficos, urbanos ou não, para sua posterior reconstrução. Theiss (2009) argumenta que, com o tempo, “a competição intercapitalista promove relocalizações da atividade econômica em direção a regiões mais vantajosas”. Isto pode ocorrer pelas inovações tecnológicas, pelo desenvolvimento dos meios de transporte e comunicação, pelo avanço do turismo, no qual as corporações repensam as dinâmicas de acumulação permanentemente, buscando cenários mais lucrativos para formas específicas de produção de mercadorias.
A Cultura é um poderoso recurso (YUDICE, 2004), de valor simbólico, para ser agregado aos negócios; “recurso”, também, na forma de bem ou serviço (simbólico-cultural), que pode vir a ser, ele mesmo, negócio, ao mesmo tempo em que se apresenta como recurso para promover a inclusão social, para requalificar centros urbanos, para potencializar o turismo, para contribuir com a redefinição e requalificação do desenvolvimento regional etc.
Sem a intenção de aprofundar, neste trabalho, as idéias de Antonio Negri e Giuseppe Cocco, que dizem que o próprio trabalho virou cultural, cabe aqui a citação de um trecho que esclarece, na perspectiva desses italianos, a centralidade da cultura na contemporaneidade:
“O que é cultural no capitalismo globalizado das redes é o trabalho em geral. Ou seja, um trabalho que se torna intelectual, criativo, comunicativo – em uma palavra, imaterial. A cultura ‘gera valor’ (como diz o ‘management’) porque o que é incorporado aos produtos são formas de vida: estilos, preferências, status, subjetividades, informações, normas de consumo e até a produção de opinião pública. A mercadoria precisa ser dotada de valor cultural. O trabalho se torna, assim, ação cultural. O trabalho da cultura e na cultura se torna cada vez mais o paradigma da produção em seu conjunto.” (NEGRI; CUOCCO, 2006 apud MIGUEZ, 2007).
Diante desse quadro, a cultura torna-se mercadoria, mas de um tipo diferente. Ela não pode ser comparada a um produto industrial. Quando se fala em cultura, argumenta-se sobre coisas mais elevadas da vida humana. Para tanto, o Estado, através das políticas públicas possui relevância central, como mediador e assegurador de um status especial da mercadoria cultura.
REFERÊNCIAS (falta por conforme ABNT)

HARVEY, David. A arte da Renda: a globalização e transformação da cultura em commodities. In: A Produção Capitalista do Espaço.São Paulo, Editora Annablume, Capítulo VIII, 2005, pp.219-240.

MIGUEZ, Paulo, “Alguns aspectos do processo de constituição do campo de estudos em economia da cultura”, Apresentado no Seminário Internacional em Economia da Cultura (Recife, 16 a 20 de julho 2007) organizado pela Fundação Joaquim Nabuco.

ORTIZ, Renato. Cultura e Desenvolvimento. In.: Políticas Culturais em Revista, 1(1), p. 122-128, 2008 – http://www.politicasculturaisemrevista.ufba.br.

THEISS, Ivo. Do desenvolvimento desigual e combinado ao Desenvolvimento geográfico Desigual. In: Novos Cadernos NAEA, v. 12, n. 2, p. 241-252, dez. 2009, ISSN 1516-6481

YÚDICE, George. A Conveniência da Cultura: usos da cultura na era global. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006, pp.615.