Árvores suspensas sobre um rio quase morto

Posted on Novembro 16, 2010

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Até 28 de novembro, quem passar pelas margens do Tamanduateí, perto do Mercado Municipal de São Paulo (veja o mapa), vai deparar com uma imagem curiosa: árvores de grande porte estarão suspensas sobre o rio. Intervenção do artista mexicano Hector Zamora, este jardim absurdo é Errante, obra que faz parte do Margem, projeto organizado pelo Itaú Cultural com curadoria do arquiteto Guilherme Wisnik.

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Errante busca impressionar e provocar discussão: como a arte se relaciona com o espaço público? Como desenvolver a cidade sem destruir recursos naturais tais como os rios? É a primeira de uma série de obras do projeto Margem que irão dialogar com rios importantes da bacia hidrográfica brasileira. O objetivo é trabalhar temas decisivos como urbanismo, meio ambiente e marginalização social. Segundo Wisnik, “margem lembra não só os rios, mas também o que ficou de lado no progresso”.
Outro face do projeto visa a despertar o interesse pela arte pública. A arte que fica no espaço de todos serve para mudar a percepção que se tem de algo cotidiano e que pode às vezes passar despercebido. Zamora destaca que a obra no espaço aberto dialoga com vários tipos de pessoas, além de críticos e entendidos. De acordo com o artista, “se eu conseguir fazer a pessoa sorrir, lembrar de algum episódio, esquecer do cotidiano ou refletir sobre certa situação, a obra terá cumprido sua função”.

Região de Conflito

local em que Errante acontece é significativo: no início do século XX, o limpo Tamanduateí era lugar de lavar roupa e pescar. Em certo período, foram chamados especialistas europeus para construir o Parque Dom Pedro II. Com o tempo, a urbanização poluiu o rio e desfigurou o parque, “de um jeito que nem parece mais um parque”, diz Guilherme Wisnik.



A urbanização também trouxe a verticalização. Um dos edifícios, o São Vito, tornou-se uma famosa favela vertical na década de 1980. Hoje está sendo demolido, depois de um longo processo de desocupação. Vários outros prédios no entorno também estão muito degradados. Para Wisnik, isso é parte de Errante: “o Tamanduateí está em uma região popular, conflituosa e rica de informação, marcada pelo comércio informal, pelos moradores de rua, pela perda de moradias históricas. Procuramos abordar essas relações”.

São Paulo é errante“, diz Zamora, “sempre mudando, esquecendo do seu passado”. A obra acaba sendo um retrato da cidade, mas o artista ressalta que o que ela pode fazer pensar tem um alcance mais amplo. “Vale para o Brasil, para o México, para o mundo”, afirma.