SOCIOLOGIA DAS AUSÊNCIAS.

Posted on Setembro 28, 2010

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SOCIOLOGIA DAS AUSÊNCIAS.

Estou aprofundando algumas leituras sobre a sociologia das ausências. Estou refletindo se ela pode ser um bom instrumental analítico para pensar a política cultural de maneira pluralista e de democratização cultural, rompendo com a monocultura do saber e do poder. Segundo Santos (2005),

“A sociologia das ausências é uma pesquisa que visa demonstrar que o que não existe é, na verdade, activamente produzido como não-existente, isto é, como uma alternativa não-credível ao que existe. O seu objecto empírico é considerado impossível à luz das ciências sociais convencionais, pelo que a sua simples formulação representa já uma ruptura com elas. O objectivo da sociologia das ausências é transformar objectos impossíveis em possíveis, objectos ausentes em presentes”.

Com a sociologia das ausências proposta por Santos (2005), os silêncios e as invisibilidades sociais passam a ganhar visibilidade e concretude, haja vista a nova racionalidade que ele insere no estudo da realidade. O conceito, cunhado pelo sociólogo português é um dos resultados de uma pesquisa com a sua coordenação, visando estudar as alternativas à globalização neoliberal e ao capitalismo global. O principal objetivo desta pesquisa era “determinar em que medida a globalização alternativa está a ser produzida, a partir de BAIXO e quais são suas possibilidades e limites”. Para isso, estudaram-se casos envolvendo movimentos sociais, iniciativas locais e outras alternativas em seis países: Moçambique, Portugal, Brasil, Índia, Colômbia e África do Sul.

Foram analisadas 5 áreas temáticas: a) Democracia Participativa; 2) Sistemas de produção alternativos e Economia Solidária; 3) Multiculturalismo, direitos coletivos, pluralismo jurídico e cidadania cultural; 4) Alternativas ao Direito de Propriedade Intelectual e Biodiversidades Capitalistas; 5) Novo internacionalismo operário.

Partindo da idéia de que “a experiência social em todo mundo é mais ampla e variada do que a tradição científica e filosófica ocidental conhece e considera importante” e que esta riqueza social está a ser desperdiçada, Santos propõe um modelo diferente de racionalidade. Para combater este desperdício e tornar visíveis as iniciativas de movimentos alternativos é necessária um a Razão Cosmopolita, fundada em três procedimentos sociológicos: “sociologia das ausências; sociologia das emergências e; trabalho de tradução”.

O ponto de partida do pensamento de Boaventura de Souza Santos, é que a compreensão do mundo excede em muito a compreensão ocidental de mundo. Dois elementos centrais para compreender o mundo são as concepções de tempo e temporalidade. Desta forma, argumenta Santos, a concepção ocidental contrai o presente e expande o futuro, tendo o presente um “instante fugidio, entrincheirado entre o passado e o futuro”.

É justamente essa lógica que a Razão Cosmopolita propõe alterar: “terá de seguir a trajetória inversa, expandir o presente e contrair o futuro”. Para contrair o futuro, a sociologia das emergências; para expandir o presente, a sociologia das ausências.

É um empreendimento que visa romper algumas monoculturas. Existem, de acordo com Santos (2005), cinco lógicas de produção de “não-existências” que a Razão Cosmopolita transgride:

a)monocultura do saber ou do rigor do saber – o poder e o status são conferidos e legitimados pela ciência moderna ou pela alta cultura. Além disso, não de importante existiria;

b)monocultura do tempo linear – a História é vista numa perspectiva evolucionista, rumo ao progresso, de maneira linear, tornando invisível aquilo que não comunga com o desenvolvimento;

c)monocultura da naturalização das diferenças: erige hierarquias, naturaliza classificações raciais e sexuais, classificando o social de modo arbitrário. Se não adequada a um padrão, é inferior.

d)monocultura do universal e do global: o local é menos importante, porque aprisionado entre escalas que o incapacitam de ser alternativa. As tendências homogeneizantes da globalização e do capitalismo contemporânea.

e)monocultura dos critérios de produtividade e de eficácia – só interessa os processos de produção com muito lucro, valorizando a produção e quantificação das coisas e das pessoas. Se não produtivo, desnecessário.

A sociologia das ausências torna visível o que não aparece porque não é importante perante as hierarquias do capitalismo e da globalização contemporânea e mesmo da ciência moderna e da alta cultura. É preciso, então, a sociologia das emergências para “identificar e valorizar as experiências desperdiçadas pelo conhecimento hegemônico, em seguida, na sociologia das emergências, a tarefa cognitiva é investigar e ampliar as alternativas concretas de futuro naqueles saberes, práticas ou sujeitos que estavam ocultos pela racionalidade conservadora. Trata-se de uma ampliação simbólica, que visa maximizar a esperança e minimizar a frustração” (SILVA, 2007).

BIBLIOGRAFIA

SILVA, Sara Maria de Andrade. A ‘Sociologia das Ausências como uma nova racionalidade para o conhecimento: breves considerações sobre o campo da mídia e do direito como monoculturas hegemônicas. In: Revista da FARN, Natal, v.6, n. 1/2, p. 21-32, jan./dez. 2007

SANTOS, Boaventura de Sousa (2002), “Para uma sociologia das ausências e uma sociologia das emergências“, Revista Crítica de Ciências Sociais, 63, 237-280.

contato: bsantos@ces.uc.pt