Cultura e seus enlaces contemporâneos

Posted on Agosto 11, 2010

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A esfera da cultura é do domínio dos símbolos e a noção de desenvolvimento pertence ao domínio da racionalidade. Enquanto a primeira é constitutiva da sociedade, a segunda é datada historicamente, sendo intrínsecas as sociedades modernas e suas dinâmicas internas e relações com o mundo. O vinculo entre Cultura e Desenvolvimento é decisivo, na medida em que o segundo é influenciado pelo primeiro e vice-versa, gerando a diversidade cultural e as várias interpretações sobre o desenvolvimento (ORTIZ, 2008).

Na contemporaneidade, a Cultura assume lugar central nas discussões acerca do Desenvolvimento. Se em função do processo de acumulação a Cultura foi se desvencilhando da Religião até a constituição de um “campo cultural” próprio nas dinâmicas da modernidade, atualmente ocorre um fenômeno chamado de “transbordamento da cultura” para outros campos do conhecimento que refletem sobre o desenvolvimento como a Economia, a Ciência e Tecnologia, a Política, etc.

cultura e os enlaces contemporâneos

Neste sentido, as discussões em torno da Cultura mobilizam duas premissas ou porque não, promessas: de um lado, estudiosos apontam para o deslocamento da centralidade do geopolítico e geoeconômico para o foco geocultural. Da mesma maneira, conforme Samuel Huntington, a crescente importância da Cultura nas relações cotidianas e internacionais levará ao “choque de civilizações”. A idéia desse conflito surge nos anos 1970, sendo logo deixada de lado. Ainda assim, com os ataques terroristas aos EUA em 11 de setembro de 2001, esta abordagem é recolocada em cena. Porém, comungo da idéia de que o choque entre diferentes sociedades é fruta da desigualdade de acesso aos bens e serviços públicos e não das diferenças culturais.
Diante disso, encaro a “transbordamento da cultura” como o diálogo transdisciplinar no qual a Cultura passa a ocupar centralidade para além das fronteiras do seu “campo”, estabelecendo enlaces e constituindo conjunções (LOIOLA&MIGUEZ, 2007).

Podemos apontar alguns enlaces principais:

a) Politização da Cultura: disputas em torno de visões de mundo e pela hegemonia e direção intelectual e moral de uma sociedade.
b) Culturalização da Política: os candidatos a cargos executivos de todas as três esferas governamentais estão sendo obrigados pelos seus eleitores a tocar em assuntos culturalmente relevantes para suas sociedades, aborto, união civil de pessoas do mesmo sexo, descriminalização e legalização das drogas e uso de símbolos religiosos em repartições públicas, por exemplo;
c) Tecnologização da Cultura: a cultura transborda também para as tecnologias contemporâneas, através da reprodução técnica de textos/imagens/sons como o cinema e a fotografia; ou pelo surgimento do ciberespaço e, ainda, pela produção de bens simbólicos em torno da Indústria Cultural;
d) Reterritorialização da Cultura; pode-se constatar o conceito de cultura na criação de espaços macro-regionais, como a Organização dos Estados Latino Americanos – OEA. Outro fator importante para a ampliação da importância conceitual da cultura no Território são os fluxos migratórios, geradores de hibridização de estilos de vida e de formas sociais.
e) Cultura e Economia: neste caso podemos apontar a convergência entre ambas através da Economia da Cultura ou Economia Criativa, cada vez mais presentes nas estratégias de desenvolvimento e que abrange a produção, a circulação e o consumo de bens simbólico-culturais.
f) Culturalização da Mercadoria: o crescente papel dos elementos simbólicos na determinação do valor da mercadoria.

O que considero como Cultura? Existe uma polissemia de significados em torno do conceito de cultura e essa a multiplicidade das definições acompanha a diversidade de interesses institucionais. Se o assunto for tratado por um antropólogo, estaremos diante de explicações que levam em conta aspectos simbólicos dos universos sociais. Porém existem consensos, necessária para a operacionalização do conceito e a aplicação em pesquisas e políticas públicas.

Podemos indicar:

a) Recusa do Determinismo Biológico;
b) Recusa do Determinismo Geográfico;
c) Cultura é uma construção histórica a partir da existência de relações entre os grupos humanos, sendo apreendida socialmente, carregando significados, convenções, mentefatos e artefatos que tornam inteligível a vida em grupo;
d) A percepção de que a Cultura tem natureza dinâmica, mutável e plural e;
e) A pluralidade e a diversidade cultural não se compadecem de lógicas hierarquizantes, sendo esses resultados do etnocentrismo (não há cultura melhor ou pior).

Neste sentido, este artigo trilha a opção apresentada pela professora Isaura Botelho, que aponta para duas dimensões da cultura, igualmente importantes, e fundamentais para uma delimitação de estratégias de desenvolvimento com sustentabilidade: uma mais abrangente de cunho antropológico,

” Na dimensão antropológica, a cultura se produz através da interação social dos indivíduos, que elaboram seus modos de pensar e sentir, constroem seus valores, manejam suas identidades e diferenças e estabelecem suas rotinas. Desta forma, cada indivíduo ergue à sua volta, e em função de determinações de tipo diverso, pequenos mundos de sentido que lhe permitem uma relativa estabilidade. (…) Aqui se fala de hábitos e costumes arraigados, pequenos mundos que envolvem as relações familiares, as relações de vizinhança e a sociabilidade num sentido amplo, a organização dos diversos espaços por onde se circula habitualmente habitualmente, o trabalho, o uso do tempo livre, etc. Dito de outra forma, a cultura é tudo que o ser humano elabora e produz, simbólica e materialmente falando. (…)

E uma mais restrita, de campo cultural num âmbito mais especializado (BOTELHO, 2001).


“A dimensão sociológica não se constitui no plano do cotidiano do indivíduo, mas sim em âmbito especializado: é uma produção elaborada com a intenção explícita de construir determinados sentidos e de alcançar algum tipo de público, através de meios específicos de expressão. Para que essa intenção se realize, ela depende de um conjunto de fatores que propiciem, ao indivíduo, condições de desenvolvimento e de aperfeiçoamento de seus talentos, da mesma forma que depende de canais que lhe permitam expressá-los. Em outras palavras, a dimensão sociológica da cultura refere-se a um conjunto diversificado de demandas profissionais, institucionais, políticas e econômicas, tendo, portanto, visibilidade em si própria. Ela compõe um universo que gere (ou interfere em) um circuito organizacional, cuja complexidade faz dela, geralmente, o foco de atenção das políticas culturais, deixando o plano antropológico relegado simplesmente ao discurso (BOTELHO, 2001, p.74)”.

Desta forma, a noção de cultura é, atualmente, fundamental para se refletir e entender as dinâmicas socioeconômicas dos territórios, para a elaboração de estratégias de preservação de comunidades tradicionais, para a redefinição dos padrões de produção e consumo nas sociedades, enfim, para a refundação do conceito de Desenvolvimento num sentido multidimensional, baseado no manejo com sustentabilidade dos recursos naturais e humanos.

É importante, nesse sentido, apontar a percepção de que há algo de novo no conceito de riqueza: seja pelos experimentos participativos/inclusivos no âmbito de algumas políticas governamentais, seja no campo das agências de fomento e ONGs. No ambiente acadêmico, David Harvey aponta que as singularidades culturais de uma região ou de um produto são fundamentais para a formação dos rendimentos contemporâneos. Como aponta Frederic Jameson, a Cultura, ela própria, se tornou um produto. E neste sentido, aponto novamento Yúdice e sua noção de cultura como Recurso, na atualidade, para gerar riqueza, inclusão urbana e a requalificação das cidades.

CULTURA E DESENVOLVIMENTO LOCAL/REGIONAL

O que chamamos de Desenvolvimento? A sua conceituação foi se transformando ao longo das últimas décadas, acompanhada pela noção de riqueza. Hoje existem vários outros indíces que medem a evolução da economia, para além do PIB. Existem, por exemplo, o IDH (Indice de Desenvolvimento Humano) e FIB (Felicidade Interna Bruta). Essas incorporações, que vão além do economicismo histérico, incluem esferas intangíveis, algo não imaginado na Teoria Econômica Clássica.

O modelo tradicional de Desenvolvimento, confundido com Crescimento e paranóia econômica era, também, um processo exógeno, baseado no mimetismo (cópia de exemplos que deram “certo”). Desconsideração total pela escala local.

Entre 1970 e 1990 acontece a requalificação do conceito de Desenvolvimento, incluindo a necessidade da sustentabilidade, a partir dos diagnósticos e prognósticos ambientais. Começa a haver maior preocupação com o endógeno, baseado na lógica das necessidades e não do mercado, em harmonia com a natureza, aberta a câmbios institucionais, articulando múltiplos atores e saberes.

Arena de Desenvolvimento: o desenvolvimento está preso a relações sociais locais de poder, que precisam ser entendidas e que orientam a ação. O sujeito não é um indivíduo que realiza no seu comportamento lógicas exteriores a ele, lógicas que somente ele aplicaria. O sujeito deve compor com as contradições que essas lógicas geram em outros contextos. Ele deve assumir tensões, problemas, conflitos que lhe são impostos e construir assim as suas próprias trajetórias.
Observa-se no mundo contemporâneo uma diversificação dos espaços de referência, dos espaços de pertinência social e cultural. É o sujeito que tem que dar uma coerência a seu próprio mundo e, portanto, a sua identidade. A pluralidade do sujeito responde à multiplicidade dos espaços de referência: o sujeito constrói no seu próprio mundo um lugar que é o dele e que é coerente. O sujeito tem que ser tomando enquanto inseparável de seu lugar: um não existe sem o outro. (DE SARTRE; BERDOULAY, 2005, p.114)

Nesta o estatuto do local mudou, surgindo como uma possibilidade de expressão das insatisfações produzidas pelo desenvolvimento racional/economicista. Então, neste sentido, se Cultura é constituidora de identidades, molda comportamentos, embasa a ação política, constrói valores ela precisa ser uma dimensão fundamental para a constituição de estratégias de desenvolvimento local/regional. A Cultura, nesse caso, precisa ser trabalhada com as duas dimensões propostas por BOTELHO, citadas acima: antropológica e sociológica. Cada qual vai merecer atenção específica por parte dos agentes envolvidos no desenvolvimento. O desenvolvimento precisa ser multiescalar, includente, sustentável, transdisciplinar e processual.
Para tanto, algumas preocupações devem ser levadas em conta, quando articulamos cultura e desenvolvimento:

a) Cuidados em torno da sedução economicista ( aquele papo bonito sobre cultura e 7% do PIB mundial);
b) O Fato de que a Cultura e outros temas do campo do simbólico estão cada vez mais presentes nos discursos dos políticos. No entanto, a prática é decepcionante.;
c) O purismo e a resistência de muitos grupos culturais e de segmentos da academia em torno do conceito de cultura;

Concluindo, a idéia deste autor é que nas estratégias de desenvolvimento local/regional, a cultura deve ser entendida a partir de uma perspectiva que recuse a visão instrumental, monolítica de cultura, tanto econômica quanto ideologicamente. O viés economicista em torno da diversidade reforça os interesses dominantes e subordina o simbólico a esfera econômica.

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SARTRE, Xavier Arnauld de e Berdoulay, Vincent. Teoria do sujeito, geografia e desenvolvimento local. Novos Cadernos NAEA v. 8, n. 2, p. 109-124, dez. 2005, ISSN 1516-6481.
HARVEY, David. A arte de lucrar: globalização, monopólio e exploração da cultura. In: MORAES, Dênis (Org.). Por uma outra comunicação: mídia, mundialização cultural e poder. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 2003. p. 139-171.
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ORTIZ, Renato. Cultura e Desenvolvimento. In.: Políticas Culturais em Revista, 1(1), p. 122-128, 2008 – www.politicasculturaisemrevista.ufba.br.
BOTELHO, Isaura. “Dimensões da cultura e políticas públicas”, In São Paulo em Perspectiva 15(2, São Paulo: 2001,pp73-83.
LOIOLA, Elizabeth ; MIGUEZ, Paulo . Sobre cultura e desenvolvimento. In: III ENECULT Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura, 2007, Salvador. (acesso: 16/04/2010, 22h44m –http://www.cult.ufba.br/enecult2007/ElizabethLoiola_PauloMiguez.pdf)